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Data: 07/01/2011
Foto: Arquivo Pessoal

Vila das Aves, cidade localizada a 30 quilômetros da cidade do Porto, em Portugal, é palco, há quase 30 anos, de uma experiência educacional singular. A Escola da Ponte, fundada pelo educador José Francisco Pacheco (o “Zé da Ponte”), não tem salas de aula, mas grupos de estudo; não tem turmas divididas por faixa etária, mas por interesse dos alunos; não tem testes, mas projetos, ou seja, não é uma escola tradicional. Mais interrogações do que certezas norteiam a pesquisa deste educador português. Em fevereiro, José Pacheco integra o projeto Rede Lab na Arena sobre Formação Colaborativa.
1) Como surgiu a Escola da Ponte?
O projeto da Ponte surgiu de dificuldades e de interrogações. Perante alunos analfabetos na quarta série, frente à violência simbólica e física, que caracterizavam o quotidiano da escola, só poderíamos assumir uma posição de questionamento e de mudança.
Fomos apresentando e explicando aos pais sucessivas mudanças, acolhendo deles a permissão para realizá-las. Visto os efeitos das mudanças, os pais tornaram-se os maiores defensores do projeto.
A escola não muda a sociedade. Muda com a sociedade. O projeto da Ponte visa mudanças culturais e políticas. A tal ponto, que eu tive de assumir o maior sacrifício pessoal: devo confessar que fui prefeito da minha cidade...
2) É uma escola sem sala de aula, sem provas e sem turmas? Como a Escola da Ponte funciona?
Não existe um “funcionamento” padrão. O nosso projeto gerou uma estrutura, um tipo de organização do trabalho escolar que contempla a diversidade. O complexo de dispositivos pedagógicos, instalados ao longo de mais de trinta anos, permite que cada aluno defina o seu percurso de aprendizagem, estabeleça os seus projetos e planejamentos, conduza as suas pesquisas, construa currículo subjetivo, sempre acompanhado pelos professores. Daí que seja impossível dizer como funciona a escola. Cada dia é diferente do anterior e do seguinte... E é diferente para cada sujeito de aprendizagem.
Todo o ato pedagógico é um ato de relação (cognitiva, afetiva, emocional...) de um para um. Por isso, instituímos a figura do tutor. Os jovens fazem planejamento quinzenal, planejamento diário, em função de projetos, que eles concebem com mediação dos professores.
A Escola da Ponte é uma escola da rede pública, que acolhe alunos que outras escolas jogam fora. Na Ponte, os alunos aprovam e fazem cumprir regras que anulam resquícios de indisciplina. Desfizemos a cultura de solidão do professor e do aluno e criamos uma cultura solidária.
Ao cabo de mais de trinta anos de projeto, o Estado Português outorgou-nos o direito de ter lei própria. A Ponte é a única escola verdadeiramente autônoma em Portugal, celebrou com o MEC um “contrato de autonomia”. Também creio ser a única escola (do mundo) em que o órgão de Direção é constituído, majoritariamente, por pais e membros da comunidade educativa.
Existe um dispositivo chamado “grupo de responsabilidades”. Cada um desses grupos (de alunos e professores) assegura o funcionamento de uma parcela de atividade, ou espaço da escola. Na Ponte, somos todos diretores...
3) O que o motiva a buscar outra forma de ensinar e aprender? Uma metodologia diferente do padrão ocidental...
Na Ponte, tomamos consciência de que a inovação assenta na tradição e mantivemos aquilo que nela consideramos útil. Porém, o modelo dito “tradicional”, aquele em que é suposto ser possível transmitir conhecimento, como se professores e alunos fossem vasos comunicantes, faliu, há muito tempo atrás. E nós interrogavamo-nos: se o modelo epistemológico baseado na transmissão faliu, por que razão se mantém o modelo organizacional que o suporta?
A manutenção de práticas obsoletas é criminosa. Ou seremos cegos perante a dura realidade de um país em que milhões de alunos não completam o ensino fundamental, onde milhões de brasileiros sobrevivem na tragédia do analfabetismo funcional?
4) Para você, qual o papel do educador?
O papel do (novo) educador é múltiplo. São muitos os papéis, que não aqueles que, tradicionalmente desempenha. Deverá criar vínculos, exercendo uma autoridade amorosa; não preparar projetos para os alunos, mas ensinar os alunos a elaborar e a desenvolver projetos, efetuando mediações; não fazer planejamento de aula, mas ensinar os alunos a fazer planejamento, a saber gerir tempos, as suas vidas; não transmitir conteúdo, mas ensinar os alunos a pesquisar, a analisar, criticar e sintetizar informação, transformando-a em competências; isto e muito mais, mas sempre em equipe.
Se os educadores brasileiros se mantiverem ancorados em práticas “tradicionais”, não poderão realizar qualquer tipo de mudança. Mas se forem capazes de rever as suas práticas, de identificar as suas dificuldades de ensinagem, de assumir autonomia, poderão fazer de todos os seus alunos seres mais sábios e pessoas mais felizes.
5) E qual o papel do aluno?
Numa prática isomórfica (a pedagogia do professor é a pedagogia do aluno), através do exemplo, o papel do aluno decorre do papel do educador. O modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Mutatis mutandis, o professor não ensina aquilo que diz, ensina aquilo que é...
6) O que significa educação colaborativa?
Significará uma nova cultura pessoal e profissional, na qual cada ser humano seja, individualmente, responsável pelos atos do seu coletivo.
7) Qual o critério é essencial para uma educação em rede?
Que nos vamos prevenindo relativamente a emergentes confirmações de pós-modernas éticas individualistas e resistindo à tentação de novas e sutis formas de hierarquia...