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Memórias culturais em permanente construção: novas formas de memórias em ambientes online

Data: 24/08/2010
Foto: Carlos Henrique Falci

*Autor: Carlos Henrique Falci é Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor do curso de Cinema de Animação/Artes Digitais da Escola de Belas Artes da UFMG, Carlos integra o grupo de pesquisa 1maginári0, voltado para a pesquisa em arte e tecnologia, e a rede Marcel – Multimedia Art Research Centres and Electronic Laboratories, sendo responsável pela área de grupos de discussão relacionados a temas da rede. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

O propósito desse artigo é discutir como a criação de memórias coletivas em rede, em ambientes programáveis, provoca o intercruzamento das memórias comunicativas com as memórias culturais e permite o surgimento de novas formas de memória entre os grupos que utilizam esses ambientes. A hipótese é que esses movimentos fazem com que, cada vez mais, a memória cultural se aproxime de uma memória comunicativa. Nesse sentido, as memórias culturais produzidas em ambiente em rede devem ser entendidas como produção permanente de novos acontecimentos, uma vez que a lógica de conexão a que obedecem é um híbrido construído por grupos que existem, também, em função da comunicação mediada pelas próprias redes sociotécnicas.

A lógica do artigo será baseada numa discussão inicial sobre memória cultural, memória comunicativa, e a memória distribuída em ambientes programáveis. Essa argumentação será utilizada para indicar alguns elementos presentes no que denominamos memórias em permanente estado de construção.

O primeiro passo é delimitar os conceitos de memória cultural e memória comunicativa. Para Assman (1995), a memória cultural relaciona-se com todo conhecimento obtido através de práticas sociais repetidas ao longo do tempo, e pode funcionar como elemento que estrutura o comportamento e a experiência de vida de um grupo social. A memória cultural seria caracterizada por ter um horizonte temporal que não muda com o passar do tempo. Ela seria construída pela cristalização de ritos, eventos, acontecimentos, os quais poderiam ter seus significados transmitidos através do tempo. Já a memória comunicativa seria demasiadamente instável para se configurar como uma cultura objetivada, e logo, como elemento capaz de identificar uma coletividade. Baseada na comunicação cotidiana, ela seria caracterizada por um alto grau de não especialização, instabilidade temática e desorganização. Além disso, a principal limitação da memória comunicativa na estruturação da identidade de um grupo social seria seu horizonte temporal limitado, uma vez que o horizonte da memória comunicativa se modifica diretamente com o passar do tempo.

No caso das memórias distribuídas digitalmente, entretanto, o que parece acontecer é uma aproximação entre a memória cultural e a memória comunicativa. Andrew Hoskins (2009) utiliza o termo “on-the-fly”, para caracterizar a memória distribuída em redes digitais. Numa tradução livre, pode-se dizer que essa é uma memória construída permanentemente, na medida mesmo em que está se tornando registro de algo em acontecimento. Em função de se encontrar "distribuída" digitalmente, esse tipo de memória é ativamente construída e reconstruída o tempo todo, ou seja, enquanto está sendo formulada como registro de um acontecimento. Isso se deveria ao alcance das mídias digitais que captam incessantemente o cotidiano. A memória cultural se aproxima cada vez mais do momento de acontecimento dos eventos, numa temporalidade comprimida, provocando um entrecruzamento com as memórias comunicativas. Nesse sentido, os mecanismos sócio-técnicos atuais de registro da memória produzem modificações instantâneas dos fatos registrados, porque os colocam em novas redes de memória a todo momento. E podem surgir daí novas formas de memória, o que denomino memórias culturais em permanente estado de construção. Alguns projetos permitem afirmar que as memórias em rede não desaparecem, ou se tornam por demais efêmeras. Ao contrário, o que parece acontecer é que surgem novas formas de existência para memórias em ambientes programáveis. Projetos como megafone.net, Yellow Arrow, Between Blinks and Buttons envolvem o uso de celulares e a lógica das redes para provocar a criação e a multiplicação de narrativas sobre espaços urbanos, sobre coletividades com pouca ou nenhuma visibilidade social, sobre novas formas de pensar e vivenciar espaços físicos e espaços coletivos a partir de registros fotográficos. Cada projeto envolveu a criação de experiências localizadas ao redor do mundo, mas com a proposta de fazer com que essas experiências se desenvolvessem em rede, ou mesmo criassem redes de contato entre os interessados no conteúdo discutido e produzido por cada grupo social envolvido.

A análise dos projetos permite sugerir pelo menos três elementos-chave para discutir as memórias culturais em permanente estado de construção. O primeiro elemento relaciona-se ao modo como a dinâmica das redes perpassa a construção dos conteúdos produzidos pelos grupos sociais nesses ambientes. O segundo elemento que caracterizaria as memórias culturais em rede baseia-se na lógica do tagging, seja ele físico ou virtual. O terceiro elemento-chave se relaciona às interfaces fluidas utilizadas nos projetos, e o modo como elas participam da produção de conteúdo. Ao permitir o registro cotidiano permanente de fatos, a utilização dos celulares cria uma memória cultural que é atemporal num novo sentido, porque é constantemente atualizável.

Espera-se que a conclusão temporária, aqui produzida, seja capaz de estimular o surgimento de redes de diálogo sobre o modo como a computação mediada por computador produz memórias coletivas, cujo tempo de duração é uma medida da capacidade de conexão entre os grupos que as produzem, uma vez que tais grupos existem em ambientes online.


Terceiro Setor e Construção da Cidadania

Data: 09/07/2010
Foto: Cuia Guimarães

Localizada na fronteira entre o poder público e a iniciativa privada, existe uma zona neutra que, no final do século XX, começou a ser ocupada de forma organizada. Nascida da experiência filantrópica e assistencialista desenvolvida durante anos a fio por entidades públicas e privadas e por indivíduos muitas vezes bem intencionados, esse movimento derivou na ocupação mais sistematizada dos muitos espaços vazios deixados pela inoperância dos governos.

Dessa forma, foi criado o ambiente propício para o surgimento do que veio a ser denominado Terceiro Setor. Formado por organizações que trazem para si a incumbência de atuar nas mais diversas áreas sociais, ambientais, educativas e culturais, desenvolvendo tarefas que, por natureza caberiam ao setor governamental, o Terceiro Setor tem suas atividades financiadas pela iniciativa privada, mas também por recursos públicos das mais variadas origens.

As instituições que formam o Terceiro Setor terminam por ocupar os espaços vazios onde quer que eles existam. Em geral, o Terceiro Setor utiliza dos instrumentos, meios e recursos disponíveis, buscando a melhoria da qualidade de vida, a conscientização ambiental, a inclusão social, a valorização da cultura e do modo de vida das populações e comunidades, entre outros. No campo ambiental é imprescindivel a reflexão sobre a relação entre o Segundo Setor e o Terceiro Setor. É fundamental que as ações e projetos sejam concebidos com a participação real das comunidades e que os mesmos sejam transparentes e alinhados com as politicas públicas. Vale ressaltar a importância da conscientização das empresas privadas e da construção de uma politica ambiental empresarial. Outra questão a ser considerada é a premissa de monitoramento e avaliação das ações, projetos e atividades desenvolvidas tanto pela iniciativa privada como pelas organizações não governamentais. Portanto, as ações, ora planejadas pelas Ongs, ora pelas Empresas, precisam ter o comprometimento em atuar de forma realmente responsável. Assim, é possível favorecer o desenvolvimento econômico e social. Realizar tais ações com seriedade significa rever a agenda do desenvolvimento com eficiência. Para isso, deve-se levar em conta as potencialidades essenciais da realidade, e que, até agora, foram geralmente ignoradas.

Potencializar o capital social e ambiental é uma tarefa complexa que exige o alargamento das possibilidades das políticas ambientais de se integrarem aos esforços voltados para o desenvolvimento econômico promovidos pelos setores privado, público e pela própria da sociedade civil organizada. Isso, naturalmente, implica em aprimorar as áreas de planejamento e gestão por meio de investimentos sistemáticos orientados para a formação de quadros especializados para operarem a gestão com eficiência. Planejamento requer pesquisa, mapeamento, diagnósticos continuados, monitoramento e avaliação, quadros de pessoas
qualificados, desenho de programas estratégicos e menos táticos.

Artigo de Patrícia Lamego de Carvalho - Gestora e Coordenadora do Instituto Artivisão