Quer acompanhar o desenvolvimento das
ações realizadas pelo Instituto Artivisão e
seus parceiros? Cadastre-se aqui:
Tel. (31) 3241 5880
Email contato@institutoartivisao.org.br
Data: 07/01/2011
Foto: Divulgação

Artigo Juliana Leonel
Os primeiros registros de experiências envolvendo a produção audiovisual de grupos e comunidades no Brasil são do início da década de 80. Estava em jogo a produção de um tipo de imagem dos grupos sociais diferenciada da emitida pela televisão. Os grupos em atividade trabalhavam sob uma concepção militante e coordenados nacionalmente em um movimento pelo vídeo popular, que envolvia principalmente comunicadores e educadores sociais direcionados para as práticas dos partidos políticos de esquerda, sindicatos e outros movimentos populares (SANTORO, 1989).
A partir de meados dos anos 90 há uma debilitação dos vínculos do vídeo popular com estes movimentos de esquerda no país. Em compensação as iniciativas audiovisuais se voltam para ações locais e começam efetivamente a passar a câmera para a mãos da comunidade. A grande mudança pos-vídeo popular perceptível e que cria e fundamenta a noção definidora de audiovisual comunitário se sustenta principalmente pelo aspecto da realização coletiva. Para possibilitar a apropriação da tecnologia pelos membros das comunidades foi necessário criar processos formativos. E esta dimensão da formação instaurada no âmbito das proposições com vídeo e grupos tem um papel relevante no direcionamento das experiências atuais.
Na última década (2000-2010) principalmente fomentado por políticas públicas, o país experimenta um aumento significativo de iniciativas de formação e produção audiovisual comunitária. Não há proposições concertadas ou um discurso unificador claro, mas podemos falar em bases comuns compartilhadas por estas experiências.
Pesquisa realizada pela equipe de organização do livro Audiovisual Comunitário e Educação mostrou que cada vez mais as iniciativas em atividade investem na dimensão formativa com as comunidades, se conformando como espaços de educação informal. Há claramente um perfil sócio-educativo comum às experiências.
Segundo estudos acadêmicos 76% das iniciativas estão prioritariamente direcionadas ao público jovem das periferias dos grandes centros urbanos, principalmente da região sudeste. Uma característica marcante declarada pelas experiências é a utilização da gestão participativa. É considerado fundamental a participação dos grupos nos vários momentos da formação e produção. Apenas 5,2% das iniciativas pesquisadas afirmaram não desenvolverem processos participativos.
Podemos dizer que este aspecto da participação foge aos modelos baseados na pedagogia escolar tradicional. A aposta na gestão compartilhada dos projetos sociais objetiva fomentar a compreensão, pelos participantes, do sentido dos processos vividos. Por meio de assembleias, rodas de debates e outros métodos e técnicas, as práticas constituem-se como rituais de aprendizagem, avaliação e planejamento com códigos inovadores, que exigem relações coletivas e face a face.
A nosso ver, as iniciativas de audiovisual comunitário apresentam uma valorização do que Marta Souto (1993) chama de pedagogia do grupal, o que vai além das tradicionais metodologias de trabalho em grupo. A autora entende o grupal como pluralidade de indivíduos em copresença para realizar algo. O grupo é tomado como uma unidade não simplificada, mas múltipla e composta de uma diversidade interna. Na perspectiva de Souto, é desde o grupal que se constrói uma integração não reducionista das situações, a qual inclui o nível individual de participação e aprendizagem.
Muitas ações escolares tendem a não incluir as interações como fator de interesse. Frequentemente elas operam no nível individual e não atendem as características do conjunto. As práticas encontradas em diversas iniciativas de audiovisual comunitário parecem propor o âmbito grupal como o mais adequado para embasar as situações formativas. Há uma espécie de devir grupal atravessando várias experiências pesquisadas que apresentam possibilidades de autorreconstrução e de auto-organização, de forma aberta e flexível.
Este devir grupal é reforçado pelo ancoramento teórico das atividades nas ideias do educador brasileiro Paulo Freire. Mais da metade das iniciativas encontradas desenvolvem suas atividades de maneira original e independente de referencias teóricas formais. Porém dos projetos que mencionaram referencias teóricas 80% apontaram utilizar a pedagogia essencialmente democrática de Paulo Freire.
A partir desta perspectiva freiriana revisita-se o que é conhecido, comum, local e ordinário para reinventá-los. O universo pessoal e cotidiano dos participantes é o ponto de partida das atividades propostas aos grupos. É essa também a base da relação estabelecida com a técnica audiovisual. Busca-se uma valorização da criação artística indagatória; do pensamento audiovisual em detrimento de uma abordagem tecnicista.
Acreditamos que o movimento audiovisual comunitário contemporâneo instaura um novo projeto pedagógico e político para e com a juventude, cuja principal riqueza reside nos formatos de relações sociais que instauram. Este conjunto de experiências relativamente recente e os espaços de formação criados por elas vem potencializando novas formas de atuação juvenil. Por meio da produção de vídeo, os jovens egressos de processos formativos em comunicação comunitária, vem recriando suas possibilidades de entrada nas esferas culturais e políticas, em um movimento dinâmico marcado pela invenção constante.
Referências:
SANTORO, L. F. “A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil”, São Paulo, Summus Editorial, 1989.
SOUTO, Marta. Hacia una didáctica de lo grupal. Buenos Aires: Miño y Dávila, 1993.
Data: 07/01/2011
Foto: Arquivo Pessoal

A partir do novo quadro de ministro e secretario estadual de cultura, a sociedade civil analisa o cenário para 2011/2014, observando a continuidade das propostas de aprimoramento dos incentivos fiscais e das políticas públicas para o setor. Tais mudanças ampliam as perspectivas do campo de atuação cultural de profissionais especializados ao longo dos últimos 20 anos.
Portanto, é oportuno que os gestores, produtores e agentes culturais façam uma reflexão em relação aos seus papeis e funções na cadeia produtiva cultural.
A cultura pode ser financiada por outras fontes que não somente os incentivos fiscais e os fundos? Precisamos exclusivamente de mecanismos públicos de incentivo fiscal? Podemos ser respeitados como uma economia que gera circulação financeira por meio da arte?
Para que a cultura seja acessível a todos, é importante integrar ações culturais à educação como estratégia para formação de público. O que é necessário para cada indivíduo é uma questão própria e exclusiva de cada um. Então, qual a função do Estado neste contexto? Como e porque o Poder Público devem despertar e promover o interesse “de cada um” para a arte?
As listas de projetos aprovados nas leis de incentivo em todos os níveis revelam que as propostas selecionadas têm perfil de mercadológico, enquanto manifestações tradicionais de cultura, como o folclore e o artesanato e, na outra ponta, as pesquisas de novas linguagens e manifestações experimentais, têm maior dificuldade em obter aprovação. Quando aprovadas, enfrentam a resistência de eventuais patrocinadores. Ficam à margem do processo por não oferecerem retorno institucional ou de mídia às empresas incentivadoras, mas o apoio a essas manifestações continua sendo responsabilidade constitucional do Estado. Como serão os critérios para a mudança de incentivo fiscal para os recursos de fundos?
Diante de tais apontamentos, colocam-se algumas questões. Quais as áreas artísticas que se financiam economicamente como produto? Que tipo de produção artística precisa realmente de financiamento público por meio de fundos?
Obtendo esse alinhamento da realidade, pode-se pensar em estratégias e diversificação de ações criativas e inovadoras para que a cultura não ficar totalmente dependente do Estado. O objetivo é que algumas áreas da cultura tenham uma vida autônoma, não excluindo a parceria com o Poder Público.
O cenário mercadológico encontra-se em processo de concentração de recursos para ações que ofereçam visibilidade. Ativando os fundos para as áreas e projetos que necessariamente precisam ser mantidas pelo Governo, as demais ações, projetos e produtos buscarão no mercado o seu financiamento.
Obviamente, o estado é peça fundamental na determinação de ações. Mas é necessário que outras fontes de financiamento sejam desenvolvidas e difundidas.
É de se salientar e parabenizar as discussões setoriais realizadas no âmbito federal, estadual e municipal, porém ainda não ocorreu a intensificação do diálogo no que refere à cultura, entre os três poderes. Uma interação e o diálogo entre estes atores, independente de partidos e crenças políticas, seria de grande valia para a cultura nacional.
O Ministério da Cultura dedicou-se, durante os oitos anos do Governo Lula, a uma reestruturação baseada na coleta de informações, formulação de um novo sistema cultural, o Pró-Cultura, e no fomento do diálogo entre as três instâncias públicas. Minas Gerais também apresentou mudanças nos editais da Lei de Incentivo e do Fundo. Agora é o momento da sociedade civil se apropriar dessas conquistas. Enfim, espera-se que a perspectiva para o próximo ano seja de adaptação às novas propostas práticas de desenvolvimento da cultura.
Patricia Lamego Carvalho
Gestora e Coordenadora do Instituto Artivisão
Data: 05/11/2010
Foto: arquivo

Data: 24/08/2010
Foto: Carlos Henrique Falci

*Autor: Carlos Henrique Falci é Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor do curso de Cinema de Animação/Artes Digitais da Escola de Belas Artes da UFMG, Carlos integra o grupo de pesquisa 1maginári0, voltado para a pesquisa em arte e tecnologia, e a rede Marcel – Multimedia Art Research Centres and Electronic Laboratories, sendo responsável pela área de grupos de discussão relacionados a temas da rede. Vive e trabalha em Belo Horizonte.
O propósito desse artigo é discutir como a criação de memórias coletivas em rede, em ambientes programáveis, provoca o intercruzamento das memórias comunicativas com as memórias culturais e permite o surgimento de novas formas de memória entre os grupos que utilizam esses ambientes. A hipótese é que esses movimentos fazem com que, cada vez mais, a memória cultural se aproxime de uma memória comunicativa. Nesse sentido, as memórias culturais produzidas em ambiente em rede devem ser entendidas como produção permanente de novos acontecimentos, uma vez que a lógica de conexão a que obedecem é um híbrido construído por grupos que existem, também, em função da comunicação mediada pelas próprias redes sociotécnicas.
A lógica do artigo será baseada numa discussão inicial sobre memória cultural, memória comunicativa, e a memória distribuída em ambientes programáveis. Essa argumentação será utilizada para indicar alguns elementos presentes no que denominamos memórias em permanente estado de construção.
O primeiro passo é delimitar os conceitos de memória cultural e memória comunicativa. Para Assman (1995), a memória cultural relaciona-se com todo conhecimento obtido através de práticas sociais repetidas ao longo do tempo, e pode funcionar como elemento que estrutura o comportamento e a experiência de vida de um grupo social. A memória cultural seria caracterizada por ter um horizonte temporal que não muda com o passar do tempo. Ela seria construída pela cristalização de ritos, eventos, acontecimentos, os quais poderiam ter seus significados transmitidos através do tempo. Já a memória comunicativa seria demasiadamente instável para se configurar como uma cultura objetivada, e logo, como elemento capaz de identificar uma coletividade. Baseada na comunicação cotidiana, ela seria caracterizada por um alto grau de não especialização, instabilidade temática e desorganização. Além disso, a principal limitação da memória comunicativa na estruturação da identidade de um grupo social seria seu horizonte temporal limitado, uma vez que o horizonte da memória comunicativa se modifica diretamente com o passar do tempo.
No caso das memórias distribuídas digitalmente, entretanto, o que parece acontecer é uma aproximação entre a memória cultural e a memória comunicativa. Andrew Hoskins (2009) utiliza o termo “on-the-fly”, para caracterizar a memória distribuída em redes digitais. Numa tradução livre, pode-se dizer que essa é uma memória construída permanentemente, na medida mesmo em que está se tornando registro de algo em acontecimento. Em função de se encontrar "distribuída" digitalmente, esse tipo de memória é ativamente construída e reconstruída o tempo todo, ou seja, enquanto está sendo formulada como registro de um acontecimento. Isso se deveria ao alcance das mídias digitais que captam incessantemente o cotidiano. A memória cultural se aproxima cada vez mais do momento de acontecimento dos eventos, numa temporalidade comprimida, provocando um entrecruzamento com as memórias comunicativas. Nesse sentido, os mecanismos sócio-técnicos atuais de registro da memória produzem modificações instantâneas dos fatos registrados, porque os colocam em novas redes de memória a todo momento. E podem surgir daí novas formas de memória, o que denomino memórias culturais em permanente estado de construção. Alguns projetos permitem afirmar que as memórias em rede não desaparecem, ou se tornam por demais efêmeras. Ao contrário, o que parece acontecer é que surgem novas formas de existência para memórias em ambientes programáveis. Projetos como megafone.net, Yellow Arrow, Between Blinks and Buttons envolvem o uso de celulares e a lógica das redes para provocar a criação e a multiplicação de narrativas sobre espaços urbanos, sobre coletividades com pouca ou nenhuma visibilidade social, sobre novas formas de pensar e vivenciar espaços físicos e espaços coletivos a partir de registros fotográficos. Cada projeto envolveu a criação de experiências localizadas ao redor do mundo, mas com a proposta de fazer com que essas experiências se desenvolvessem em rede, ou mesmo criassem redes de contato entre os interessados no conteúdo discutido e produzido por cada grupo social envolvido.
A análise dos projetos permite sugerir pelo menos três elementos-chave para discutir as memórias culturais em permanente estado de construção. O primeiro elemento relaciona-se ao modo como a dinâmica das redes perpassa a construção dos conteúdos produzidos pelos grupos sociais nesses ambientes. O segundo elemento que caracterizaria as memórias culturais em rede baseia-se na lógica do tagging, seja ele físico ou virtual. O terceiro elemento-chave se relaciona às interfaces fluidas utilizadas nos projetos, e o modo como elas participam da produção de conteúdo. Ao permitir o registro cotidiano permanente de fatos, a utilização dos celulares cria uma memória cultural que é atemporal num novo sentido, porque é constantemente atualizável.
Espera-se que a conclusão temporária, aqui produzida, seja capaz de estimular o surgimento de redes de diálogo sobre o modo como a computação mediada por computador produz memórias coletivas, cujo tempo de duração é uma medida da capacidade de conexão entre os grupos que as produzem, uma vez que tais grupos existem em ambientes online.
Data: 09/07/2010
Foto: Cuia Guimarães
